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— MYRIAM RAWICK

A Guerra da Síria vista

pelos olhos de uma menina

Por Myriam Rawick

Guerras destroem cidades, casas e vidas. Colocam o ponto final em histórias que não estavam nem perto de terminar. Guerras silenciam memórias. Mas nem todas elas. 

Myriam Rawick vivia uma vida leve em seu paraíso na cidade de Alepo. Porém, quando a Guerra da Síria estourou na sua vizinhança e reduziu tudo aquilo que ela conhecia a cinzas, a jovem garota buscou conforto nas palavras que escrevia, às pressas, em seu diário. E transformou-as em um símbolo de esperança e resistência contra os horrores 
de um país em guerra.

Seu diário, assim com o de Anne Frank no passado, testemunha a violência que ela e tantas outras crianças enfrentaram, sem compreender o que acontecia ao redor. Todas as vozes da Síria encontram em Myriam a força para se libertarem 
da culpa de estarem vivas e semearem novas flores em meio às ruínas do que restou.

"Adoraria que um dia as estrelas da minha bandeira fizessem parte de uma constelação e pudessem ser

vistas por qualquer pessoa de qualquer parte do 

nosso planeta."

— MYRIAM RAWICK

©François Thomas

©François Thomas

O Diário de Myriam é um registro comovente e verdadeiro sobre a Guerra Civil Síria. Escrito em colaboração com o jornalista francês Philippe Lobjois, que trabalhou ao lado de Myriam para enriquecer as memórias que ela coletou em seu diário, o livro descortina o cotidiano de uma comunidade que sofre com o conflito através dos olhos de uma menina.

 

Com registros colhidos entre junho de 2011 e março de 2017, o diário alterna as doces memórias do passado na cidade de Alepo e os dias doloridos e carregados de incertezas. E é com a sensibilidade de uma autêntica contadora de histórias que ela narra a preocupação crescente de seus pais com as notícias na TV, as pinturas revolucionárias nos muros da escola, as manifestações contra o governo, a repressão, o sequestro de seu primo e, por fim, os bombardeios que destroem tudo aquilo que ela conhecia.

Meu nome é Myriam, tenho treze anos. Cresci em Jabal Sayid, bairro de Alepo, onde também nasci. Um bairro que não existe mais.

Os cheiros, os gostos, a felicidade agora estavam aqui,

sob as ruínas, abafados sob os tetos desabados.

Adorava minha cidade, meu bairro. Gostava de sentir o calor de suas pedras polidas pelo tempo.

Eu era feliz, leve.

Quando a gente abre as janelas, não tem um barulho de vida sequer. Não existem flores, não existem cores e até os pássaros já nos deixaram.

O ÉDEN, LEMBRANÇAS e POEIRA
Leia a introdução de
O Diário de Myriam 

Compre nas lojas:

Basta que eu feche os olhos e me concentre para que tudo volte. 

 

Tenho três anos, eu me agarro no sofá da sala para tentar escalá-lo. Meu rosto enfiado nas almofadas de bordado vermelho. Ouço o riso da mamãe, atrás de mim.

 

Tenho quatro anos e espero impacientemente meu bolo de aniversário. Sinto o cheiro de mel que vem da cozinha. Papai, mamãe, minha irmã e meus vizinhos estão lá, rindo, conversando. Há barulho, um burburinho suave, alegre. Mamãe me vestiu com um vestido, meu preferido. Branco com florezinhas de todas as cores, costuradas por todo canto. Passo o dedo por cima dele para contar o número de pétalas de cada flor. Papai abriu bem as janelas da sala. Vemos o vento sacudir as árvores que quase chegam até a janela. Uma brisa entra, nos refresca e, como se fosse mágica, apaga as velas colocadas em cima do meu bolo, antes que eu tivesse tempo de soprá-las. 

 

Tenho seis anos e mamãe me leva ao suque pela primeira vez. O táxi nos deixa no grande estacionamento, que também funciona como feira às quintas. Mamãe tinha me avisado: “Não largue minha mão, vai ter muita gente. Com certeza muito mais gente do que você já viu”. E ela tinha razão. Me agarro a ela e nós abrimos caminho entre os feirantes, ambulantes e pedestres que entram e saem do suque. Uma muralha ocre fechava a cidade velha. Me lembro dessas portas imensas de madeira, abertas para nos deixar passar.

 

O calor do lado de fora dá imediatamente lugar a um frescor mineral. Precisei de alguns instantes para que meus olhos se acostumassem à penumbra. O suque é um labirinto de pequenas ruas cobertas. Para onde quer que eu olhe, vejo tijolinhos que formam as paredes e o teto. Só se vê o céu através da base dos tijolos de vidro. No ar, várias cúpulas de pedra, uma após a outra. Tenho a impressão de estar entrando em um túnel mágico, milenar.

Por todo canto, pequenas tendas presas à parede. Tecidos de todas as cores que pendem das bancas. 37 Casacos, vestidos, bordados. Mamãe me mostra um rolo de tecido: “Toque”. Eu hesito: tem rosa, laranja, vermelho. Escolho o verde. É macio. “Isso é seda, querida”, murmura mamãe.

 

Prosseguimos por esse labirinto fabuloso. Vendedores de amêndoas frescas passam por nós com seus carrinhos cheios. Mamãe me pede para fechar os olhos. Obedeço, muito feliz por poder entrar na brincadeira. Sou guiada por sua mão. “Olhe agora.” Quando abro os olhos, tudo brilha intensamente à minha volta. As tendas dos tecelões tinham dado lugar às dos joalheiros. Quilos, toneladas de ouro que cintilavam. Colares, pulseiras escorriam das vitrines em rios dourados.

 

Cheiros, risos, cores. Tantas lembranças que me fazem recordar minha vida de antes. Lembranças que são como miragens. Tão distantes daquilo que vivo hoje. Daquilo que vejo. Daquilo que sinto. 

*

Meu nome é Myriam, tenho treze anos. Cresci em Jabal Sayid, bairro de Alepo, onde também nasci. Um bairro que não existe mais. Tenho medo de esquecer essas imagens, essa cidade que desapareceu, esse mundo que afundou no caos.

Outro dia, mamãe me disse que meus olhos não eram os únicos guardiões de minhas lembranças. Eu podia também confiar em meus dedos, meus ouvidos, meu nariz. A volta da escola tem o cheiro do chá de gengibre do café Ammouri; os sábados cheiram a pão redondo e quente da padaria da esquina; os domingos têm o cheiro dos círios da igreja de São Jorge; as caminhadas pelo velho suque, de sabão de azeite e especiarias. Meus aniversários têm gosto de mel; o verão tem gosto de tâmaras; a primavera, de damascos de Damasco; e o inverno, do chá com canela da minha avó. 

 

Até que tudo acontecesse, cresci nesse paraíso de cores, cheiros, sabores. Até que tudo acontecesse, me bronzeei sob o sol de Alepo, bebi a água de Alepo, tomei banhos com sabonete de Alepo. 

 

Adorava minha cidade, meu bairro. Gostava de sentir o calor de suas pedras polidas pelo tempo, de ouvir o canto dos almuadens, de me proteger à sombra das igrejas. Eu era feliz, leve.  E não imaginava que a vida pudesse ser de outra forma. 

 

Com mamãe, nós caminhávamos, muito, o tempo todo. De oeste a leste, de norte a sul. Da cidadela que vigia a cidade velha até a igreja de São Elias que parece um castelo. 

No verão, ao final da caminhada, parávamos embaixo dos eucaliptos da praça para tomar um sorvete de creme salpicado de pistache. Ao fechar os olhos, ainda sinto esse cheiro de leite e de flor de laranjeira. Às vezes, quando saíamos de manhã cedo, parávamos em um café da cidade velha. Em um pátio de um caravançarai onde um pequeno restaurante havia se instalado; comíamos tomates, pepino, azeitonas, queijo e pão de azeite e ervas. 

Um dia, quando eu era bem pequena, papai disse: “Alepo é a estrela da terra”. E ele tinha razão. Alepo era um éden, era o nosso éden.